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Terras-raras: o poder que o Brasil não aprendeu a usar

  • Redação
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura
Minas Gerais é um estado reconhecido pela capacidade mineráriaFoto: CBMM/Divulgação
Minas Gerais é um estado reconhecido pela capacidade mineráriaFoto: CBMM/Divulgação

Nesta semana, o governo Trump propôs tarifas de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros. A justificativa mistura ideologia com interesses econômicos: o processo judicial contra Bolsonaro, a soberania digital do Pix, o desmatamento. Uma lista de acusações construída para pressionar o Brasil a dobrar os joelhos.


Mas há um detalhe que diz tudo sobre como funciona o poder no século XXI: as terras-raras brasileiras estão fora da taxação. Completamente isentas. Porque os Estados Unidos não conseguem obtê-las em quantidades suficientes em nenhum outro lugar do mundo.


O Brasil concentra 23% das reservas mundiais de minerais críticos e terras-raras. Grande parte desse tesouro está em Minas Gerais – no Vale do Jequitinhonha, no Sul de Minas, em territórios que meu povo habita há séculos. São os mesmos territórios que o Congresso Nacional quis entregar sem consulta, sem soberania e sem contrapartida ao aprovar o PL 2.780/2024. São os Cabrais do século XXI, negociando a preço de banana o que vale ouro geopolítico.


Enquanto a extrema direita brasileira articulava junto a Trump uma retaliação econômica contra o nosso país, o próprio Trump deixava as terras-raras fora da punição. Porque minerais estratégicos não têm ideologia. Eles têm poder. E o Brasil ainda não aprendeu a usá-lo.


Esse é o paradoxo que o Brasil precisa entender de uma vez: as mesmas riquezas que a bancada do boi quer entregar a preço de banana são exatamente o que nos protege de retaliações internacionais. Nossa soberania mineral é, hoje, mais eficaz como escudo geopolítico do que qualquer aliança diplomática. A China entendeu isso. A União Europeia entendeu isso. O Brasil ainda discute se deve entregar o minério bruto sem contrapartida.


E é por isso que a luta dos povos indígenas pela proteção dos territórios não é uma pauta identitária ou ambientalista isolada. É uma pauta de soberania nacional. É uma pauta econômica. É uma pauta estratégica no tabuleiro geopolítico mais disputado do século. Quando a Justiça de Araçuaí condena a Sigma Mineração por violações contra comunidades do Jequitinhonha, não está apenas protegendo famílias, está dizendo que território não se negocia sem povo.


Quando falamos que o Vale do Jequitinhonha não é zona de sacrifício, estamos falando de uma região que guarda minerais que os EUA, a China e a Europa disputam com unhas e dentes. Quando exigimos consulta livre, prévia e informada antes de qualquer concessão minerária, estamos garantindo que o Brasil não repita o erro histórico de exportar riqueza bruta e importar dependência.


O tempo refloresta. E o Brasil tem nas mãos a oportunidade de transformar suas terras-raras em instrumento de soberania, não de subserviência.


Mas, para isso, precisamos de uma política mineral responsável, de uma Terrabras, como tivemos a Petrobras, e de representantes que entendam que defender o território indígena é defender o Brasil.

Cocar no poder. Floresta de pé. Minerais críticos são nossos. A vida é que é rara. Texto por Célia Xakriabá

 
 
 

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