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Quando o mundo adoece, são os povos originários que sabem o caminho de volta

  • Redação
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura


Maxakali. Warao. Yanomami. Pataxó. São quatro nomes que, nos últimos meses, apareceram nas manchetes ligados à mesma palavra: crise. Crianças que morrem de causas evitáveis. Famílias despejadas de terras que ocupam há séculos. Comunidades sem água potável, sem saúde, sem o direito mais básico de existir em paz no próprio território.


É tentador ler cada uma dessas tragédias como um caso isolado, um problema pontual de um povo específico, numa região distante. Mas quem olha de perto percebe que elas têm a mesma raiz. E entender essa raiz é entender também onde está a saída.


A mesma ferida, com nomes diferentes

O povo Tikmũ'ũn Maxakali, no Vale do Mucuri, vive uma crise humanitária tão grave que a Justiça precisou reconhecer um "Estado de Coisas Inconstitucional": entre as crianças de 1 a 4 anos, a mortalidade chega a ser trinta vezes maior que a das crianças não indígenas da mesma região.


O povo Warao, refugiado da Venezuela e hoje em Betim, enterrou crianças e anciãos por desnutrição e por doenças simples, enquanto uma resposta pública que deveria ser coordenada demorava a sair do papel.


O povo Yanomami, na maior terra indígena do Brasil, foi vítima de um garimpo ilegal que envenenou rios, espalhou fome e doença, e transformou um território inteiro em cenário de calamidade.


O povo Pataxó, no extremo sul da Bahia, viu chegar a ameaça de despejo de uma terra que ocupa desde o início do século XIX, com o risco de crianças e anciãos serem retirados à força de suas casas.


Quatro povos e no fundo, a mesma lógica: territórios que são tratados como obstáculo ao lucro, e povos que são tratados como se estivessem a mais.

A crise não é só deles. É do modelo

Essas crises não caem do céu. Elas são o resultado previsível de um modo de organizar o mundo que transforma tudo em mercadoria: a floresta vira madeira, o rio vira quilowatt, a montanha vira minério, e a terra onde vive um povo inteiro vira "área disponível" no mapa de uma empresa.

É o mesmo modelo que rompe barragem em Mariana e Brumadinho e depois cobra pedágio de quem sobreviveu. Que arranca lítio e terras raras do Jequitinhonha em nome de uma "transição energética" que nunca chega para quem mora ao lado da cava. Que libera licença de mineração sobre território quilombola sem consultar ninguém. Que trata a Amazônia como fronteira a ser conquistada, e não como casa a ser cuidada.

Quando a lógica é essa, a crise dos povos indígenas é só a ponta mais visível de uma crise muito maior: a crise de um sistema que precisa destruir para lucrar, e que já está esbarrando nos próprios limites, o clima que se desregula, a água que falta, o ar que adoece. Os povos originários são os primeiros a sentir. Mas não serão os últimos.

Os povos indígenas não são só as vítimas. São a resposta

Aqui está o ponto que quase nunca aparece nas manchetes. Se os povos indígenas são os primeiros a sentir a destruição, eles também são quem, há milênios, sabe como viver sem destruir.

Não é romantismo, é dado. Os territórios indígenas estão entre as áreas mais preservadas do planeta. Onde o modo de vida originário resiste, a floresta fica de pé, a água segue limpa, a biodiversidade se mantém. O que o mundo hoje chama de "sustentabilidade", buscando em conferências e metas distantes, os povos originários chamam simplesmente de viver.

Por isso a presença indígena não é um problema a ser administrado. É uma solução a ser ouvida. E essa solução não se dá apenas no território. Se dá também onde as decisões são tomadas: no parlamento, na lei, na Constituição.

Quando o indígena legisla, o mundo inteiro ganha

Não é utopia. Já está acontecendo, e há exemplos concretos pelo mundo.

Na Nova Zelândia, depois de mais de 140 anos de luta do povo Maori, o Parlamento aprovou em 2017 uma lei que reconheceu o rio Whanganui como pessoa jurídica, com direitos próprios. O rio, sagrado para os Maori, passou a poder ser representado na Justiça por dois guardiões, um indicado pelo povo Maori e outro pelo Estado. Foi a tradução, para a linguagem do direito, de algo que os povos originários sempre souberam: o rio não é um recurso, é um parente vivo.

No Equador, a Constituição de 2008 foi a primeira do mundo a reconhecer a Natureza, a Pachamama, como sujeito de direitos, com direito à existência e à regeneração dos seus ciclos vitais. Na Bolívia, a Constituição de 2009 refundou o país como Estado Plurinacional, e em 2012 veio a Lei dos Direitos da Mãe Terra. Foram os movimentos indígenas que empurraram essas conquistas, colocando o Bem Viver, o Sumak Kawsay, no centro do projeto de país.

No próprio Brasil, essa semente já brota. Cidades como Bonito, em Pernambuco, e municípios de Rondônia já aprovaram leis reconhecendo rios como sujeitos de direito, muitas vezes inspiradas diretamente na cosmovisão dos povos originários e tradicionais. É o conhecimento ancestral virando lei, de baixo para cima.

O que todos esses exemplos têm em comum é simples e poderoso: quando o pensamento indígena chega ao lugar onde se escrevem as leis, não são só os indígenas que ganham. Ganha o rio, ganha a floresta, ganha o clima, ganha todo mundo que depende da água e do ar, ou seja, ganha a vida.

A casa do povo ainda tem pouca gente do povo

E é justamente aqui que o Brasil ainda tem uma dívida enorme. Em mais de duzentos anos de Congresso Nacional, o país nunca reelegeu um parlamentar indígena. Foram só dois deputados federais indígenas antes de 2018. Nenhum senador indígena jamais foi eleito na história do Brasil.

Enquanto a bancada do boi lota o plenário e trava tudo que cheira a direito de povo, a voz de quem protege 80% da biodiversidade do planeta mal cabe na Câmara. Falta povo na casa do povo. E não é possível enfrentar a crise climática, a crise da água, a crise da destruição desenfreada, sem quem carrega no corpo e na memória a experiência de milhares de anos vivendo em equilíbrio com a terra.

Reflorestar o país não é só plantar árvore. É reflorestar as instituições. É garantir que quem sempre soube cuidar da vida esteja onde se decide o futuro dela.

Porque quando a Terra adoece, nós adoecemos junto. E curar os biomas, curar os rios, curar os territórios, é curar a nossa própria existência.

Se tem cocar no poder, tem floresta de pé.


 
 
 

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