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PRIVATIZAÇÃO DA COPASA É CONCLUÍDA SOB DENÚNCIAS DE IRREGULARIDADES: MINAS GERAIS PERDE O CONTROLE DA ÁGUA PÚBLICA

  • Redação
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Reclamações de usuários de SP aumentaram em 70% após privatização | Crédito: Guilherme Bergamini/ALMG
Reclamações de usuários de SP aumentaram em 70% após privatização | Crédito: Guilherme Bergamini/ALMG

Por Célia Xakriabá, deputada federal (PSOL-MG) Se a Amazônia é o pulmão do mundo, Minas Gerais é o útero do Brasil, é daqui que nascem as águas que sustentam boa parte do país. E nessa terça-feira (16), debaixo de denúncias graves de irregularidades, o governo Zema concluiu a venda dessa água ao mercado financeiro.

A privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) foi consumada em leilão na B3, em São Paulo. A Equatorial Energia arrematou 30% do capital social da empresa por R$5,5 bilhões, o equivalente a apenas R$49,03 por ação de uma companhia que lucra R$1,5 bilhão por ano. Minas Gerais vendeu a preço de banana um patrimônio construído ao longo de décadas com dinheiro público.

A Equatorial não é estreante nesse tipo de negócio. Foi a mesma empresa que assumiu, em julho de 2024, o controle de referência da Sabesp, em São Paulo. Desde então, as reclamações de usuários paulistas sobre a qualidade do serviço aumentaram 70%, o tempo de resposta da empresa cresceu exponencialmente, e as interrupções no fornecimento de água — principalmente à noite — se tornaram cada vez mais frequentes.

Esse é o espelho que Minas Gerais tem diante de si. E é exatamente o que famílias mineiras temem que se repita aqui.

Outro grupo que adquiriu participação na empresa foi o Fundos Perfin, com relação direta ao BTG Pactual — banco citado em operações da Polícia Federal de investigação de corrupção e lavagem de dinheiro, como a Carbono Oculto e a Compliance Zero. Adquiriu 12,76% da Copasa.

O processo de privatização foi marcado por uma série de denúncias. O ex-presidente do conselho de administração da Copasa — indicado pelo próprio Zema — confessou ter recebido propina para vender contratos de saneamento. Como bem resumiu Eduardo Pereira, ex-presidente do Sindágua-MG: "tem caroço nesse angu".

Diante desse cenário, o PT e o PSOL entraram com ação no STF para invalidar a manobra feita por Zema na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que autorizou a desestatização da empresa, e para exigir a realização de um referendo popular sobre a privatização da Copasa.

Entidades sindicais também pressionam o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) para que invalide todo o processo.

Em 2024, o Plebiscito Popular em Defesa das Estatais de Minas Gerais, organizado pelos movimentos populares, mostrou que mais de 95% da população mineira é contra a privatização da Copasa. O governo Zema simplesmente ignorou a vontade do povo que deveria representar.

Água é direito fundamental. Decisões sobre tarifas, investimentos e acesso a um serviço essencial não podem ser guiadas apenas pela lógica do lucro — especialmente num estado onde comunidades indígenas e quilombolas já enfrentam escassez hídrica histórica.

A defesa da água, dos serviços públicos e do patrimônio do povo mineiro não termina com o leilão. Seguiremos acompanhando cada etapa desse processo, ao lado de quem nunca deixou de lutar: os movimentos sociais, os trabalhadores da Copasa, as comunidades que sabem, no corpo, o que significa depender de água de qualidade pra viver.

Minas Gerais não é zona de sacrifício. É território de resistência.

A vida é que é rara.

Sobre a deputada: Célia Xakriabá (PSOL-MG) é doutora em Antropologia pela UFMG, primeira deputada federal indígena eleita por Minas Gerais e atua na defesa da água, dos territórios indígenas, do meio ambiente e dos direitos das mulheres no Congresso Nacional.


 
 
 

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